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    A invenção da escrita não serviu apenas para proporcionar o surgimento maravilhoso dos livros ou nos torturar com regras gramaticais. Sua mais importante função é transmitir informações, fazendo com que a humanidade acumule conhecimento. Se todo homem tivesse que começar do zero, sem aproveitar o que seus antepassados já descobriram, estaríamos até hoje de tacape na mão, dando bangornada na cabeça das mulheres. O que, convenhamos, não seria tão ruim assim.

    O acúmulo de conhecimento e a possibilidade de se partir de um degrau mais elevado, utilizando como base aquilo que outras pessoas levaram muitos anos para descobrir, é a base da evolução humana, não apenas em termos econômicos e materiais, mas principalmente no que se refere a organização social e ao aperfeiçoamento da civilização.

    O objetivo dessa seção é exatamente esse: transmitir conhecimento. Com a anuência do escritor Luiz Antônio de Assis Brasil, são transcritas aqui uma série de técnicas, dicas e macetes ensinadas durante a Oficina de Criação Literária da Pós-graduação de Letras da PUC-RS.

    São ensinamentos preciosos, desenvolvidos ao longo de muitos anos de uma carreira literária de sucesso do professor Assis Brasil.

    Aproveitem.

    1 - Como envolver o leitor
    A literatura de qualidade, aquela que envolve e emociona o leitor, deve ter a característica de transfigurar o cotidiano e lhe dar estranheza. O fato do leitor tentar compreender porque as coisas não acontecem como deveriam lhe dá o envolvimento com a obra. O leitor passa a participar da narrativa, como se estivesse escrevendo junto com o autor.

    2 - Como prender o leitor
    A essência de uma narrativa que prende o leitor deve se basear em dois fatores:

    1° - Uma boa história. Por mais que textos com estruturas complexas ou inusitadas, que abusam de transfigurações ou inovações de linguagem, mais preocupadas com a forma do que com o conteúdo possam ser interessantes, eles agradam apenas os críticos ou intelectuais. A grande maioria dos leitores quer mesmo é ler uma boa história, que o envolva, emocione e faça vibrar e torcer com o que acontece com os personagens.

    2° - Muita ação. O que cria uma boa narrativa é fazer com que os personagens ajam. Os seus movimentos e suas ações é que prendem o leitor, pois o fazem acompanhar os atos do personagem mas reservam a interpretação dos fatos para o leitor. Quando se coloca o personagem a refletir, está se matando o texto. Quem tem que pensar é o leitor. "Acordei nervoso" é uma frase que não transmite nada. Deve-se mostrar que o personagem está nervoso através de sua ação. O leitor deve sentir que pela forma como o personagem está agindo ele está denotando nervosismo. Como dizem os americanos, "show, don´t tell". Não deve-se fazer o personagem pensar, mas agir conforme aquele estado emocional.

    Por idêntico motivo, deve-se evitar fazer comentários, procurando não interferir no texto. O cinema é muito didático neste ponto. Não se mostra uma cena de uma mãe chorando desesperadamente ante o corpo de um filho morto e lá embaixo aparece uma tarja informando: "Ela está sofrendo" ou "Cena comovente". A ação mostrada (ou, no caso do texto, narrada) deve transmitir toda a carga de emocionalidade pretendida.

    3 - Como dar consistência à narrativa
    O personagem deve sempre se mover atrás de um desejo. É isto o que dá vida e consistência à narrativa. O escritor, enquanto narrador, deve ter segurança do que quer o personagem. Ninguém deve estar lá por nada, se movendo aleatoriamente, agindo de uma forma vazia e sem sentido. Isto impede qualquer força no texto narrativo. A narrativa precisa do conflito, algo que se interponha à realização do desejo da personagem.

    4 - O que evitar no texto
    4.1 - Clichês
    O uso de clichês, lugares comuns ou idéias recorrentes (de palavras ou de idéias) significa ausência de originalidade ou preguiça. Ele enfraquece o texto porque o leitor, devido a repetição, não decodifica a mensagem, não dá importância para o clichê. É como se ali existisse um espaço em branco no texto. Quando se diz "coração partido" ou "suava frio" está-se transmitindo não um fato, mas uma espécie de idéia genérica cujo significado já se perdeu. Então o leitor lê aquilo como se não significasse nada.

    4.2 - Literatice ou Meretrismo
    A força da narrativa está nas idéias que se consegue transmitir ao leitor através da ação. Quando a idéia é fraca ou não acreditamos nela, ficamos tentados a criar algo tão complexo que acaba saindo ridículo. O texto tem que ser simples. A força vem do interior do texto.
    4.3 - Não confundir simplicidade com oralidade (escrever como se fala).
    A natureza da narrativa é diferente da oratória. Escrever da mesma forma como se fala resulta num texto simplório e geralmente redundante. Claro que existem exceções, mas elas são muito raras e só se justificam quando feitas de maneira planejada, atendendo a um objetivo maior do texto como um todo.

    4.4 - Outras dicas
    Nos diálogos, temos que usar tanto a léxica quanto a sintaxe do personagem. Quanto as palavras, evitar escrever com erros gramaticais, pois isto confunde o leitor. No entanto, dependendo do personagem e se for importante para o objetivo do texto, pode-se escrever os diálogos de qualquer forma.

    Escrever os textos num bloco só. Abrir parágrafos só quando o não fazê-lo atrapalharia o leitor.

    Ecos: rimas dentro do texto em prosa, incomodam o leitor. O problema surge com a coincidência de sílabas tônicas das frases. Ex.: "Pegou o violão e tocou uma canção". Às vezes pode ser resolvida acrescentando uma palavra que desloque a sílaba tônica da frase: Ex.: "Pegou o violão e tocou uma canção antiga".

    Kleber Boelter ® 2000-2008. A reprodução é permitida desde que a fonte seja citada.